La Fantástica Cartagena de Garcia Márquez

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É engraçado quando a gente visita lugares antes visitados apenas pela nossa imaginação. Ou através de fotos no computador. Da televisão. Dos livros de história no colégio. A sensação de estar, novamente, num lugar em que nunca antes se esteve de fato, mas que, de algum modo particular, você parece conhecer tão bem, como se ali vivesse.
Experimentei-a novamente nessa minha última viagem, a Cartagena das Índias, ‘La Heroica’, devido à sua brava resistência aos ataques piratas, ou ainda, a ‘Pérola do Caribe Colombiano’. E devo dizer, meu amigo: Que pérola! De valor inestimável e beleza indescritível. Conheci Cartagena pela primeira vez através dos olhos do meu escritor favorito: Gabriel García Márquez, ou simplesmente, Gabo, como ele é carinhosamente conhecido.
Assim como o mundo fala do Rio de Janeiro de Machado, da Londres de Dickens e Wilde, da Paris de Victor Hugo com seu corcunda, fala também da Cartagena de Garcia Márquez e seu realismo mágico. (E que sorte a minha ter podido conhecê-las todas com meus próprios olhos admirados!). E foi justamente o olhar encantador dele acerca dessa cidade, que me fez desejar pousar sobre ela, o meu próprio. E assim o fiz. Há dois anos. Levando comigo o meu companheiro pra toda a vida.
Eu pude caminhar no Portal de los Dulces, e perceber ali, o reencontro de Fermina e Florentino em “O Amor nos Tempos do Cólera”, que viria a acontecer novamente 51 anos mais tarde. Conhecer, mesmo que apenas por fora, o antigo monastério de Santa Clara – hoje transformado num luxuoso hotel – que serviu de inspiração ao escritor para contar parte da história de “O amor e outros demônios”. E que está localizado justamente ao lado da casa do próprio García Márquez. Visitar a Catedral Santa Catalina de Alejandría, onde Florentino entrega a primeira carta de amor a Fermina; além do Templo Santo Domingo, cuja lenda da torre, entortada pelo próprio diabo, foi imortalizada por Gabo em sua biografia.
A casa que abrigou o libertador venezuelano, Simón Bolivar, relatada em uma das histórias do escritor, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, com seu espetacular (e dificílimo!) “Cem Anos de Solidão.” A casa de Obregón, descrita numa crônica sobre o Ano Novo. E, por fim, pude experimentar as famosas empanadas de camarão no bar Bazurto, o favorito de Gabo quando em Cartagena. E, assim, compreender o porquê de elas, as empanadas, e o bar, serem seus favoritos. Estivesse ele vivo, eu poderia, com muita sorte, tê-lo encontrado lá na noite de sábado (e muito possivelmente, chorado feito uma criança).
Cada cantinho daquela cidade fez-me pensar se Gabo teria, em algum momento, parado ali e, com a mágica do lugar, inspirado-se para uma determinada passagem de uma história sua. Se teria ainda, comprado frutas das simpáticas palenqueras e então se sentado em algum daqueles bancos, e rascunhado algumas linhas, mesmo que para jogá-las fora depois.
Pude fechar os olhos e ver, vivamente, seus personagens percorrendo as ruelas estreitas, com suas casas pintadas em cores vivas e suas sacadas cheias de flores, debaixo de um sol escaldante que você enfrenta feliz, com um sorriso de orelha a orelha, tamanho o encantamento que Cartagena exerce sobre quem a visita, tal qual um feitiço.
A verdade é que pode parecer bobo à primeira vista, especialmente para quem vê de fora; mas uma vez dentro de suas histórias, de seu universo, em especial de sua cidade murada, enxerga-se. Percebe-se a importância de oportunidades assim, e encanta-se com elas. E se agradece. Por ter a chance de vivê-las.
Quem já experimentou reler um livro ou assistir a um filme ou documentário que se passa em um lugar que você acabou conhecendo depois de tê-lo lido/assistido pela primeira vez, conhece tal sensação. Seja esse lugar, um dos mais longínquos, ou a cidade vizinha. E essa é uma sensação deliciosa. Uma chance única. Você confirma certas impressões. Outras, desconstrói por completo.
E esse processo acaba por se transformar numa viagem dentro de outra, fazendo da última, uma experiência além de qualquer explicação. Só vivendo. Pra saber. E, como eu já disse antes, voltar com os olhos modificados e maravilhados com a grandiosidade do mundo e sua infinidade de lugares espetaculares!
Desta forma, tomo pra mim um trecho do romance “Viver para contar”, do Gabo, e digo: “Me bastou dar um passo para dentro das muralhas e ver em toda sua grandeza a luz malva das seis da tarde, para que eu pudesse experimentar o sentimento de haver voltado a nascer de novo…”
Viagem realizada em junho de 2016

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