Islândia e o sonho da Aurora Boreal

por

É muito difícil encontrar alguém que não se encante com a ideia de ver a Aurora Boreal. Também não é raro quem tenha isso como um sonho a ser realizado e não é pra menos. Tudo o que cerca a experiência parece mágico: viajar pra tão longe, o frio do inverno ártico, a noite escura do polo norte e a raridade que seria presenciar esse fenômeno. Afinal, quantas das pessoas que você conhece viram a Aurora Boreal?

O sol se põe e a caçada a Aurora começa  /  Foto: aondes.com

A Aurora Boreal, assim como a Aurora Austral, é um magnífico espetáculo de luzes que ocorre nos céus escuros dos polos magnéticos da Terra, quando partículas de tempestades solares atingem a nossa atmosfera.  Os campos magnéticos dos polos atraem essas partículas e a mágica toda acontece.

PUBLICIDADE:

Assista ao vídeo abaixo, infelizmente sem legendas, para entender melhor como acontece:

É um fenômeno raro de se ver, pelas circunstâncias que são necessárias para presenciá-lo. Primeiro, a Aurora acontece de maneira quase imprevisível, já que depende da atividade solar. Depois, ela acontece nas regiões dos polos e não é exatamente simples ir para lá. Pra completar a dificuldade, é preciso estar escuro, o que significa ser inverno, já que nessas regiões afastadas o céu está quase sempre claro durante os meses quentes do ano. E tem mais: a Aurora costuma acontecer em uma determinada faixa horária, pode durar apenas alguns segundos, precisa ser observada sem interferência de poluição luminosa das cidades e requer céu limpo.

Lago Mývatn

Resumindo: Viajar ao Polo Norte + Inverno (Frio!) + Céus Limpos + Longe de cidades + Atividade Solar.

Impossível? Claro que não. Mas vai te exigir ou muito esforço ou muita sorte. Por isso se costuma usar o termo Caçada a Aurora Boreal, pois você precisa estar na região certa, na época do ano certa, na hora certa e ainda se afastar o máximo possível de cidades. Tudo isso, buscando áreas de céu sem nuvens, no inverno ártico. Uma aventura e tanto!

Vik – Praias de areia preta

Em 2016 fomos à Islândia, um dos melhores locais do globo para se ver a Aurora Boreal. O inverno já estava quase no fim e era uma época excelente para caçadas à Aurora, já que a temperatura começava a ser suportável e ainda tínhamos longas horas de noites escuras.

As impressionantes paisagens da Ring Road

Ficamos na Islândia por 12 dias, durante os quais fizemos uma incrível road trip ao redor de toda a ilha, começando pela capital Reykjavík e partindo sentido anti-horário. Tínhamos absoluta certeza de que veríamos a Aurora Boreal e mais de uma vez. Estávamos muito animados.

As estrelas marcam os locais de pernoite ao longo dos 12 dias de viagem

Rodávamos muito durante a luz do dia, visitando cada canto possível da ilha e evitando precisar percorrer longas distâncias à noite, quando a temperatura caía muito, a visibilidade piorava e as estradas ficavam mais perigosas. Tínhamos assim, todas as noites livres para caçar a Aurora. E foi o que fizemos.

Noite após noite, uma frustração ou uma alegria e muita aventura! E frio. Sempre muito frio.

Noite 1

Os telhados coloridos de Reykjavik

Em nossa primeira noite ainda nos habituávamos ao local e nos preparávamos para a road trip. Pernoitamos na capital Reykjavík e, apesar do céu sem nuvens, preferimos não sair à caça. Ficamos pela cidade e, mesmo se houvesse Aurora aquela noite, seria muito improvável vê-la por conta da poluição luminosa.
Resultado: Sem Aurora

Noite 2

Lago Mývatn – Cenários que parecem um filme de ficção

Já na estrada e depois de um dia maravilhoso e ensolarado, tivemos noite clara. A previsão era de atividade solar. Expectativa altíssima! Jantamos e saímos em busca de um local onde a previsão de nuvens era mínima. Ainda na estrada, um grito da Flora ao meu lado: “AURORAAAA!!” Por alguns segundos, luzes verdes brilhantes dançaram loucamente no céu da Islândia, num prelúdio do que poderia ser a experiência de nossas vidas. As luzes dançaram a direita de nosso carro e eu, sem encontrar local seguro para encostar, não conseguia ver uma pontinha sequer, me restando o coração acelerado com o relato dela. Demais! Alguns minutos mais tarde, chegamos ao local onde escolhemos passar a noite: às margens da Seljalandsfoss, uma magnífica cachoeira ao sul da ilha, que havíamos visitado naquela manhã.

Godafoss

Estacionamos o carro e aguardamos. O céu estava limpo, estrelado. A Seljalandsfoss caía pertinho de nós, imponente e barulhenta. Esperamos longas horas sob muito frio e vento. Por volta da meia noite, de repente, mais luzes começaram a ser mexer no céu acima de nós e também a frente. Com movimentos rápidos, dançaram por muitos minutos um balé engraçado. Iam e vinham. Pareciam querer nos tocar ou sugar para uma dimensão estranha. Era incrível, mas tinha um porém: Lhes faltavam as cores. Tinham tons brancos e cinzas claros, como se ainda tímida. Como se ainda se aquecendo para os tons fortes de verde, azul e púrpura , como vemos nas fotos. Como se ainda fizessem somente um ensaio para a apresentação de estreia, sem as fantasias luxuosas. Já estávamos muito felizes. Insistimos por mais algumas horas e as luzes continuaram a se apresentar tímidas. Mexiam-se muito e eram tantas, mas deixaram um gostão de quero mais.
Resultado: Alguns segundos da Aurora das fotografias, muitas horas do que parecia ser somente um ensaio e um sentimento de que o evento de estreia ainda não tinha sido aquele.

Noite 3

Uma fazenda aos pés do Vulcão

Pernoitamos aos pés de Hvannadalshnúkur, um pico na borda leste do vulcão Öræfajökull e ponto mais alto da Islândia. Noite de céus nublados e nevascas.
Resultado: Sem Aurora

Noite 4

Pernoitamos em uma guesthouse a poucos quilômetros de Höfn, no leste da ilha. Noite nublada e com previsão de pouca atividade solar.
Resultado: Sem Aurora

Noite 5

Saindo de Höfn, seguimos pelos fiordes do leste e começamos então a rumar para o norte da ilha, pernoitamos em Egilsstaðir. Outra noite de céus muito nublados por toda a região.
Resultado: sem Aurora

Noite 6

A caminho do lago Mývatn

Seguimos de Egilsstaðir até um pouco mais ao norte, para a incrível região do lago Mývatn, considerada uma das melhores regiões para se ver a Aurora, devido a predominância de noites sem nuvens. Nos hospedamos no Hotel Laxá, bastante afastados de qualquer vilarejo, ao sul do lago. O hotel dispunha de um serviço de despertador para o caso da ocorrência de Aurora, o que nos punha em rara posição de muito conforto durante essa viagem. Além de oferecer excelente infra-estrutura, o Hotel ainda nos permitiria não perder horas de sono para se frustrar com céus nublados, como ocorrera nas noites passadas.
Resultado: Sem Aurora, mas uma boa noite de sono

Noite 7

Aquela região era tão incrível e o hotel tão confortável, que resolvemos ficar mais uma noite.
Resultado: Outra noite bem dormida, muita nuvem e sem Aurora.

Noite 8

Diamond Beach – Onde os icebergs da Jokulsárlón

Pernoitamos, já a noroeste da ilha, em uma vila chamada Hvammstangi. A previsão era de forte atividade solar, mas os céus estavam, de novo, nublados. Mas havia aqui uma esperança: o serviço de meteorologia apresentava focos de ausência de nuvens muitos quilômetros ao sul. Por volta das 20h, caímos na estrada e seguimos noite adentro atrás de céu limpo. Horas e horas depois, nada! Os focos de céu claro não duravam mais de 30 minutos. Os ventos fortes do atlântico norte faziam daquele céu um desafio para qualquer previsão. Que difícil!
Resultado: Sem Aurora

Noite 9

Já preocupados com a onda de infortúnios pelos céus que se nublavam aos finais de tarde, chegamos a península Snæfellsnes e nos hospedamos na pequena cidade de Ólafsvík.
Resultado: Céu parcialmente limpo. Outra noite de caçada, mas sem Aurora

Árborg – Milhares de aves na paz de um lago

Noite 10

Já estávamos de volta a região de Reykjavik.
Resultado: Sem Aurora

Snaefellsnes – Ao longo da estrada é possível fazer paradas para cumprimentar os doces cavalos islandeses

Noite 11

Última noite na Islândia. Céus claros e previsão de aurora. Uma noite longuíssima de caçada. Há certa hora, nos vimos estacionados debaixo do Grótta Island Lighthouse, um farol nas proximidades de Reykjavik. Aguardamos a noite toda. A qualquer momento seriamos surpreendidos novamente pela Aurora. Tinha de ser. Era a última noite, o céu estava limpo e a previsão era de forte atividade. Mas sem piedade, as luzes resolveram não dar seu show.
Resultado: Sem Aurora

E assim, terminava nossa jornada pela Islândia. Foram dias inesquecíveis, de experiências muito incríveis. Uma viagem para marcar a gente pra sempre.

Ólafsvík – Mar, montanhas, vento e muitas aves. Uma síntese quase perfeita

Quanto a Aurora Boreal, a Dama da Noite, as Luzes do Norte, ela se fez respeitar. Não se deu por pouco, nem com toda a sua intensidade e nem por muito tempo. Passou por uma noite, deixou a sensação da sua majestade, exigiu de nós várias noites de procura e não apareceu mais, deixando o convite para um segundo encontro em outro tempo. Quem sabe na Finlândia, na Sibéria ou no Alasca.

As cores da Islândia

Qual a moral da história? Não faça uma viagem 100% pautada na expectativa da Aurora Boreal, pois ela pode simplesmente não lhe aparecer. Mas saiba que, ainda que não a encontre, você estará fazendo uma jornada épica, em um local necessariamente incrível, com dias seguintes de perfeito acalanto para a frustração da noite anterior. E se ela vier, se a Aurora acontecer, você terá certeza de que valeu a pena ter vivido a sua vida inteira para chegar até ali.

Quem será que mora ali?

Curiosidade 1:
Segundo uma lenda local, a Aurora Boreal é a dança dos espíritos das crianças que ainda não nasceram.

Curiosidade 2:
Na mitologia nórdica, as Valquírias são deusas secundárias a serviço de Odin. São descritas como belas jovens cavalgando em cavalos alados, armadas com elmos e escudos, sobrevoando os campos de batalhas na escolha dos guerreiros abatidos em guerra que serão levados ao Valhala. Os poetas as representavam como virgens com plumagem de cisnes, com capacidade de voarem através dos céus. Comumente postavam-se as margens dos lagos e, segundo lendas, se um homem conseguisse apoderar-se de sua plumagem as teriam como escravas. A escolha desses guerreiros era ordenada por Odin, que precisava recolher os melhores guerreiros para a batalha do Ragnarok. Também eram mensageiras, e quando cavalgavam pelos céus, devido ao brilho de suas armaduras, as reconheciam através do fenômeno da aurora boreal.
Fonte: oversodoinverso.com.br

Seguir sempre 🙂

O compositor Richard Wagner, inspirado no mito, compôs uma ópera chamada “As Valquírias”.
🙂

Vocês também podem seguir o @aondes no youtube: https://www.youtube.com/channel/UCv5q2FfZwBJuBQYqvgRL8qQ

 

 

Veja também

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado.